Pastoreio #68

O EVANGELHO ACIMA DOS PARADIGMAS

Acredito que de tempos em tempos seja saudável realizarmos uma revisão nas nossas vidas, penso que nessas revisões temos a oportunidade de alterar, corrigir ou consolidar a nossa fé cristã. Quando falo em revisão de vida cristã, preciso deixar bem claro que, não se trata de não valorizar, rejeitar ou deturpar as doutrinas bíblicas, antes, porém, de verificarmos se a nossa demonstração de fé na vida cotidiana está embasada nos ensinamentos de Jesus.

Quando busco na memória recordações da minha época de novo convertido, como eu costumava demonstrar a minha fé, ou ainda, quais eram os meus entendimentos sobre a palavra de Deus e os ensinamentos de Cristo, confesso que algumas recordações me causam ainda hoje, certos constrangimentos. Os constrangimentos que menciono aqui dão conta de comportamentos que tive e de ensinamentos que transmiti em nome de Deus que, com uma releitura bíblica mais apurada e uma interpretação bíblica isenta dos meus sentimentos, cultura pessoal, usos e costumes, bem como os meus preconceitos, pude perceber como construí algumas crenças distorcidas acerca de Deus e de sua vontade.

Como Igreja penso que precisamos estar atentos ao cumprimento do ide de Jesus, entretanto, não podemos semear nada além da palavra de Deus, todo e qualquer ensinamento que não tenha seu nascedouro na palavra de Deus poderá sem dúvida causar alguns danos na formação dos cristãos.

Se considerarmos que no Brasil temos uma forte tendência de absorver culturas estrangeiras, principalmente a cultura Americana, penso que é prudente separarmos o que é bíblico e o que é cultural, pois esse movimento provavelmente nos ajudará a cometermos menos equívocos em nome de Deus e não prejudicarmos a formação dos novos cristãos.

Em nossa denominação adotamos a temática para 2020 de “O ano da evangelização”, mas penso que antes de sairmos discipulando novos cristãos, me parece ser prudente falarmos sobre o assunto proposto nesse pastoreio, pois talvez percebamos a necessidade ou não, de corrigir algo e com isso evitarmos algum prejuízo na formação dos cristãos e no avanço do reino de Deus de modo mais adequado como a bíblia orienta.

Quando falamos de paradigma, o Dicionário Aurélio diz que se trata de “modelo” ou “padrão”, ou seja, um paradigma é um modo ou forma, geralmente pré-estabelecido para ser seguido, obedecido ou implantado.

Outra palavra que podemos considerar em nossa discussão é a palavra Dogma, que segundo o Dicionário Aurélio, remete a “ponto fundamental e indiscutível de doutrina religiosa”, ou ainda, “de qualquer doutrina ou sistema”, o que mesmo com as melhores das intenções, ou seja, ser e manter o mais fiel a algo ou alguém, quando sacramentado sobre entendimentos distorcidos, provavelmente gerará algumas distorções no modo de crer e viver dos cristãos.

Quando pensei em escrever sobre o evangelho acima dos paradigmas, a ideia central é chamar a nossa atenção para revisarmos nossa forma de crer e demonstrar a fé cristã, pois talvez possamos estar replicando alguns ensinamentos e comportamentos que podem, ao invés de atrair as pessoas a Cristo, estar dificultando esse acesso até o Senhor.

Reforçando a ideia de revisar nosso modo de crer e demonstrar a fé em Cristo, McAlister (2009, p.59), escreve a fala do Monge Thomas Merton que disse, “o primeiro passo na direção de Deus, que é A Verdade, é descobrir a verdade a seu respeito e se tem vivido uma mentira. O primeiro passo na direção da sua verdade é descobrir o seu erro. Se uma vida não for completamente espiritual, ela é nada espiritual. Ninguém pode servir a dois senhores. Sua vida é formada pelo fim para o qual você a vive. Você é feito à imagem daquilo que você deseja.”

É provável que alguns paradigmas firmados, ou seja, o modo como fazemos, demonstramos e cremos, podem até ser úteis na identificação de uma denominação, mas acho que a pergunta a ser feita é se esses paradigmas comunicam Jesus e o seu evangelho. Penso que a Igreja de Cristo precisa estar sempre ligada a videira verdadeira que é Jesus Cristo, pois somente assim ela poderá permanecer recebendo Dele o alimento e Nele dando frutos que agradem ao Senhor.

Se prestarmos atenção no que fazemos, nos perguntando por que fazemos, buscando amparo bíblico para tais atos, muito provavelmente iremos identificar algumas formas e comportamentos de manifestação da nossa fé que provavelmente estarão muito mais alicerçados em uma regra, modo, forma e cultura de um segmento do meio cristão ou de uma denominação, talvez sem um devido embasamento bíblico.

Como denominação precisamos estar em harmonia com o evangelho de Cristo, ainda que temos nossas formas e identidade institucional, entretanto esses paradigmas não podem concorrer com o evangelho de Jesus.

A Igreja de Cristo não pode abrir mão da essência, do evangelho de Jesus, sobre a essência da igreja os escritores, Rainer e Rainer III (2014), relatam depoimentos de jovens que abandonavam as suas congregações por justamente não entenderem a proposta denominacional quando comparada com o evangelho de Cristo. As vezes podemos criar, ensinar e manter algumas regras que além de não terem um amparo bíblico, acaba por gerar descrédito entre os cristãos com a relação a igreja, bem como podendo prejudicar a vida de fé em Jesus de alguns.

Considero que quando nos dispomos a pregar, discipular e ensinar o evangelho de Cristo, precisamos separar muito bem o que é nosso gosto, cultura, entendimentos particulares para que não venhamos gerar novos convertidos a “nós”, ou seja, ao nosso estilo e jeito de entender ser o “certo” servir a Jesus, ao invés de convertidos a Cristo, cujo o ensino é o evangelho e o modelo é Jesus.

Alguns jovens mesmo sendo filhos de pais cristãos, acabaram não permanecendo na igreja, alguns infelizmente se afastaram totalmente de Cristo, talvez por não perceberem nos paradigmas estabelecidos por algumas instituições ou até mesmo pelos seus pais cristãos, verdades capazes de o convencer e converter, pois somente o evangelho sem distorções tem esse poder e eficácia. Talvez alguns cristãos não permaneçam em suas congregações por perceberem que alguns paradigmas impostos como verdades absoluta, se mostram fragilizados a luz da palavra de Deus.

Segundo Rainer e Rainer III (2014, p.41), “a menos que essa geração junte fé e igreja, ela não verá motivo para permanecer na igreja. Falando abertamente, a fé dos seus pais não é razão suficiente para a assumirem como sua própria.”

Acredito que precisamos estar sempre revendo as regras que criamos, uma revisão que precisa ser feita sempre a luz da palavra de Cristo, pois entendo que somente assim a Igreja poderá errar menos e estar mais próxima da vontade de Deus.

Reforçando a importância de darmos maior atenção sobre a criação e manutenção de regras, formas e tipos de “evangelhos” divorciados de Jesus, Tozer (2020, p.143), ressalta que:

 

“a mensagem, os objetivos e os métodos do Novo Testamento permanecem adormecidos. Atos realizados no nome do senhorio de Jesus Cristo são senhorio só no nome. Substituindo o verdadeiro senhorio de Cristo, introduzimos a nossa própria mensagem, os nossos próprios objetivos e os nossos próprios métodos para alcançar esses objetivos que são, em todos os casos, absolutamente não bíblicos.”

 

As vezes o nosso orgulho e teimosia podem nos levar a criar uma espécie de “pedágio” da fé que certamente dificulta a restauração do pecador(a), por conta dos nossos preconceitos e manias religiosas que insistimos em impor sobre os outros.

Segundo Tozer (2020, p.146) “a vontade própria distorce a face sorridente de Deus e esconde o fato de que a vontade de Deus tem em mente o nosso melhor interesse a longo prazo. A vontade própria só se importa com o agora.”

Provavelmente alguns paradigmas por nós estabelecidos denunciam a nossa falta de misericórdia, amor e longanimidade com o próximo, as vezes colocando sobre os outros fardos tão pesados que nem nós mesmos suportaríamos carregar, e tudo isso em nome de Deus e de um pretenso “padrão” de santidade que as vezes não sobrevive a uma análise bíblica mais apurada.

 

Recorte >>> O Evangelho deve estar sempre acima da forma, precisa ser o único padrão imutável.

 Colossenses 2 

20 Já que vocês morreram com Cristo para os princípios elementares deste mundo, por que é que vocês, então, como se ainda pertencessem a ele, se submetem a regras:
21 “Não manuseie! ” “Não prove! ” “Não toque! “?
22 Todas essas coisas estão destinadas a perecer pelo uso, pois se baseiam em mandamentos e ensinos humanos.
23 Essas regras têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e severidade com o corpo, mas não têm valor algum para refrear os impulsos da carne. (NVI)


Um dos equívocos mais comuns que podemos cometer é tentar colocar o evangelho de Deus dentro da nossa “caixa” cultural, tentar aprisionar o agir de Deus aos nossos preconceitos e formas de ser e fazer, jeito esse que, geralmente parece produzir algum tipo de prejuízo, seja em nossas próprias vidas ou na dos outros.

A proposta nesse pastoreio é nos levar a avaliarmos se porventura existe algum paradigma que, podemos estar tão bitolados nele, a ponto de colocar as nossas formas de crer, ser e fazer acima do grande amor de Deus e do evangelho de Jesus Cristo.

Quando penso sobre isso e proponho essa discussão, preciso deixar bem claro que não se trata de não validar a palavra de Deus, não se trata de sermos coniventes com o  pecado, ou ainda, não dar crédito a palavra do Senhor, antes porém, trata-se que verificar com um maior cuidado o que de fato a palavra diz e o que nós estamos dizendo.

Reproduzindo a fala do Bispo Stephen Neill, o escritor Stott (2013, p.96), escreve que, “pregar é como tecer. Há dois fatores da urdidura e da trama. Há o elemento fixo e inalterável, que para nós é a Palavra de Deus, e há o elemento variável, que permite ao tecelão mudar e variar o padrão à vontade. Para nós, esse elemento variável é o padrão das pessoas e das situações que muda constantemente.”

O que pretendo reforçar aqui é que o evangelho permanece imutável, entretanto a cultura, os hábitos, usos e costumes são modificados de tempos em tempos, segundo Stott (2013), os crentes evangélicos precisam, sem deixar de serem bíblicos, sair de seu “mundo” e comunicar as verdades eternas ao mundo moderno. Penso que isso somente poderá ser possível se formos capazes de entender e saber lidar com o mundo contemporâneo, pois a palavra de Deus não mudou, mas talvez nós estejamos sendo o fator dificultador, com nossos preconceitos, para que as pessoas ouçam e creiam no evangelho de Jesus.

Em nome de uma “santidade” ao nosso bel-prazer, algumas vezes podemos estar perdendo grandes oportunidades dadas por Deus para alcançarmos multidões para Cristo, criando regras e condições que o próprio evangelho as vezes não especifica.

Para Stott (2013, p.98) “os evangélicos são bíblicos, mas não contemporâneos, enquanto os liberais são contemporâneos, mas não bíblicos.”

Penso que a nossa religiosidade pode nos levar a criar regras e formas divorciadas do evangelho de Cristo, segundo Manning (2008, p.93), ressalta que “não é preciso ser um gênio para perceber que as pessoas religiosas tendem a ser mais obtusas do que de mente aberta. A história é quem nos mostra isso e, se Bertrand Russell estava certo, as pessoas que praticam a religião cristã encontram-se entre os piores exemplos. Com certeza, ele não é o único que pensa desse jeito. Faça uma enquete. Em vez de expandir nossa capacidade para a vida, para a alegria e para o mistério, a religião geralmente faz o contrário. ”

O papel dos pastores(as) e ensinadores(as) do rebanho de Deus é conduzir o rebanho até os pastos verdejantes, ou seja, não é dar o que quer às ovelhas, sendo assim, precisamos levar a Igreja a se alimentar da palavra de Deus e não das nossas próprias ideias e paradigmas sem o devido amparo bíblico.

Se não tivermos os devidos cuidados, corremos o risco de nos tornarmos meros religiosos que, simplesmente gostam de estabelecer padrões inusitados e sem fundamentações bíblicas às outras pessoas.

Reforçando a preocupação em não reproduzirmos e impormos às pessoas, regras e padrões cuja palavra de Deus não as imponha, cito aqui um trecho do livro “Falsos, Metidos e Impostores” do escritor Brennan Manning, segundo Manning (2008, p.99), pessoas meramente religiosas podem reproduzir comportamentos distantes dos ensinados por Jesus:

 

“Fariseus investem pesado em técnicas, métodos, rituais e posturas religiosas. “Faça deste jeito”, dizem eles aos seus seguidores, criando discípulos supostamente santos, que gostam de julgar os outros, são meio autômatos, sem vida, temerosos e intolerantes com as outras pessoas, assim como eles (secretamente) também não se toleram. São pessoas violentas, o avesso da santidade e do amor. Jesus não morreu nas mãos dos assaltantes, estupradores ou delinquentes juvenis. Ele caiu nas mãos distintas de membros respeitáveis da sociedade e profundamente religiosos.”

 

Se formos preconceituosos não permitindo ser transformados pelo evangelho de Cristo, não seremos tão diferentes dos que não acreditam Nele, na verdade penso que nos tornaremos piores que estes, partindo do pressuposto que deveríamos ter aprendido com o tão grande amor (João 3.16) e perdão (Mateus 6.14,15) recebidos de Deus, devendo então, replicar aos outros esse entendimento e amor.

Penso que é importante investigarmos alguns paradigmas criados que podem estar mais amparados em culturas locais do que nos ensinamentos bíblicos, sobre a cultura, citando Edward Taylor, antropólogo norte-americano, que assim definiu a cultura, segundo Gondim (1998, p.27) a “cultura, tomada em seu amplo sentido etnográfico, é o todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes, ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade.”

A meu ver temos um desafio que é saber comunicar o evangelho de Cristo que não muda, separando o que é doutrina e ordem bíblica do que é cultura humana e local que de tempos em tempos sofre modificações.

Quando estabelecemos paradigmas (padrões) como verdades absolutas imutáveis, quando muitas vezes esses padrões não são bíblicos, podemos incorrer no mesmo erro dos fariseus que, impunham e cobravam dos outros o que eles mesmos não viviam (Mateus 23.25-28).

 

Alguns paradigmas (modelos e padrões)

Vamos abordar alguns paradigmas que foram sendo criados ao longo da vida religiosa e adotados como padrões, alguns mesmo sem embasamento bíblico.

Certa vez, uma senhora que havia crido e confessado a Jesus como seu Único salvador, antes mesmo de ser batizada nas águas, recebeu do Espírito Santo o dom de falar línguas, quando um líder religioso soube do ocorrido, disse que não acreditava ser possível já que a mesma ainda não tinha sido batizada nas águas.

Fatos como esse podem nos dar uma ideia do que podemos encontrar em algumas igrejas evangélicas, o interessante é que o tal líder não conseguiu fornecer uma passagem bíblica se quer para fundamentar a sua forma de crer e ensinar.

Outra regra que se costuma verificar, é  que uma pessoa não poderá descer as águas do batismo sem antes ter as aulas que ensinam sobre o que é o batismo, em parte eu entendo que até pode ser por zelo dar tal instrução, ou seja, instruir devidamente a pessoa que escolhe seguir a Cristo, explicando quais serão as implicações, negar a si mesmo, entretanto não podemos estabelecer um padrão tão rígido a ponto de estranhar ou criticar quando alguém decide no dia do batismo crer em Jesus e descer as águas sem ter participado sequer de uma única aula de batismo.

Outro paradigma criado, foi sobre ao altar físico no templo, aonde alguns acreditavam de modo literal que aquele espaço era santo, a ponto de eu já ter recebido noticias que alguns líderes religiosos proibiam os grupos de louvor de cantarem ou tocarem sobre altar, bem como em épocas mais remotas, não era permitido que as mulheres subissem no altar. Algumas igrejas com o objetivo de limitar quem poderia ou não subir no altar, adotaram o uso de um púlpito menor que era colocado no piso da igreja para que a membresia de modo geral pudesse fazer uso.

O mais estranho é que provavelmente a mensagem comunicada com essas regras pode ter sido a de que para se subir ao altar as pessoas deveriam ter um nível de santidade tal, e que talvez não tivessem, sendo reservado esse privilégio aos “ungidos” ou as pessoas “santas” que, com essa crença distorcida talvez se achassem mais dignas para estarem sobre o altar, bem como reforçando a idealização e o modo de crer da igreja.

O entendimento de que o lugar dos sacerdotes, pastores ou oficiais era nas cadeiras sobre o altar, também é um paradigma que me parece indicar mais uma mensagem distorcida comunicada ao povo. Me parece que para alguns, talvez ter o seu lugar reservado no altar provavelmente pode ter sido um status desejado, pois de algum modo poderiam estar sendo projetados ou promovidos perante a igreja.

Obviamente não penso que os cristãos devam viver de qualquer modo, pecando sem arrepender-se, fazendo a obra de Deus sem respeitar ao Senhor, entretanto quando criamos alguns padrões (paradigmas) distorcidos dos descritos na bíblia, corremos o risco de viver uma mera religiosidade legalista.

Geralmente os paradigmas estabelecidos sem uma sustentação bíblica, trazem no bojo do seu argumento a crítica contra o “mundanismo”, a ideia de estarmos a salvos dentro da nossa bolha (mundo evangélico) é no mínimo frágil, pois o nosso campo missionário é justamente no mundo, e lá precisamos ser o sal da terra e a luz do mundo. Obviamente não quero com isso dizer que o cristão deva fazer as mesmas obras dos não cristãos, obras que ofendam e que sejam pecados contra Deus, mas nos isolarmos em uma “bolha” evangélica, não foi bem a ordem dada por Jesus (Marcos 16.15), antes foi a de anunciar o evangelho por todo o mundo, para todas as pessoas. Quando penso em anunciar o evangelho a todas as pessoas, acredito que não podemos deixar que os nossos preconceitos e paradigmas sejam impeditivos ou dificultadores na realização da missão.

Segundo Gondim (1998, p.107), “quando Jesus ordenou que fôssemos a luz do mundo e o sal da terra, ele referia-se exatamente a esse desafio de convivermos onde há trevas e imundície sem nos deixarmos contaminar.”

Acredito que provavelmente alguns padrões estabelecidos pela igreja tiveram em sua intenção o objetivo sincero de conduzir os crentes em uma vida de santidade, a grande questão é que alguns desses padrões estabelecidos são frágeis demais para de fato ajudarem na  geração de um novo homem ou uma nova mulher em Cristo, pois algumas dessas regras estão totalmente desconectadas do evangelho.

Não podemos achar que o fato de uma pessoa passar a crer em Jesus, seja de fato convertida a Ele simplesmente por ter trocado a camiseta e calça jeans pela roupa social, ou ainda, no caso das mulheres, trocarem as calças por saias ou vestidos, essa pretensa demonstração de santidade estereotipada não é uma verdade absoluta que o evangelho respalde.

A partir de uma interpretação equivocada/distorcida da palavra de Deus, todas as regras, padrões ou modelos criados ficaram comprometidos. Um exemplo de interpretação distorcida sobre vaidade, é mencionado por Gondim (1998, p.68,69), explicando que “no grego, vaidade é representada pelo substantivo mataiotes e também significa vazio. Não há qualquer relação entre vaidade e o uso de jóias, roupas ou ornamentos. Seu significado, em primeiro lugar, refere-se ao mundo criado que, no pecado e sem preencher o propósito inicial para o qual foi criado, tornou-se vazio. Vaidade – mataiotes – é também usada por Paulo para expor a forma de pensar e o estilo de vida dos gentios, que não conhecem a Deus. (Efésios 4.17).”

Quantos cristãos rotulavam como “mundanas” as cristãs que faziam uso de maquiagem e adornos (brincos, anéis, colares e etc.), quantas igrejas estabeleceram regras proibindo e tentando impedir o uso de tais enfeites, com pregações condenando as pessoas ao inferno, sob o pretexto dessas pessoas estarem em pecado,  por fazerem uso de tais jóias e maquiagens.

Acredito que na realização da missão precisamos ser mais bíblicos e menos preconceituosos, temos que rotular menos as pessoas, demonstrar mais o amor que Jesus demonstrou com todas as pessoas, pois esse é o plano de Deus resgatar a sua criação, não pela ameaça ou castigo, mas pela demonstração de amor, da graça não merecida.

Poderíamos abordar muitos outros exemplos de paradigmas nesse pastoreio, mas talvez precisaremos lidar com esse tema em doses homeopáticas, visando uma melhor compreensão e aceitação considerando conhecimento bíblico, tempo para reflexão e internalização dos princípios bíblicos.

Considero que as vezes as mudanças geram desconforto e dor, não é tão simples e fácil convencer a si mesmos, ainda que tais orientações estejam na palavra de Deus, por isso, optei por não tratar de modo mais profundo e contundente algumas questões doutrinárias que talvez para alguns de nós ainda não seriam tão bem diluídas, então por empatia e amor cristão, fiquemos por hora com esse conteúdo.

 

Ponto de contato >>>

Não podemos em nome de algumas formas e padrões relegar o evangelho de Cristo a segundo plano.

Argumentação > 

Penso que como denominação precisamos sempre estar fazendo uma verificação em nossa forma de demonstrar a fé, não se trata de querer mudar a palavra de Deus, jamais, pois a palavra de Deus é imutável e toda e qualquer interpretação e doutrina que não seja respaldada pela própria bíblia não é merecedora de crédito.

Não podemos colocar os nossos esforços em querer ensinar e impor sobre as pessoas qualquer padrão, regra ou forma que a palavra de Deus não ensina. Quando insistimos em manter regras e formas divorciadas do evangelho, provavelmente não alcançaremos o número de pessoas que poderíamos, lembrando que não fomos chamados para ser porteiros do reino de Deus, ou seja, decidindo e controlando quem entra ou não nos céus, mas para sermos semeadores do evangelho para todas as pessoas indistintamente falando.

Os paradigmas e dogmas divorciados da palavra de Deus, podem ser quebrados, modificados, também eles não podem ser postos acima do evangelho de Jesus, aliás nada e ninguém pode ser colocado acima do evangelho de Cristo.

Me preocupo muito com ensinamentos e exigências que nada tem a ver com o evangelho de Jesus e que acabam por atrapalhar a colheita de almas para o Senhor, precisamos a meu ver, ter muito cuidado para a exemplo dos fariseus não colocarmos as nossas regras acima das vidas.

O alvo de Deus são as pessoas, o Pai amou o mundo (João 3.16), a salvação é para todos e não cabe a nós fazer acepção de pessoas, ou ainda criar “puxadinhos” no reino que é de Deus, segregando a nosso gosto os que achamos ser aptos para serem salvos,  desprezando e julgando os que achamos não serem merecedores da graça de Deus.

Infelizmente no Brasil o meio evangélico “jogou” muitas pessoas para fora do reino de Deus, com palavras de julgamentos, com preconceitos, regras sem fundamento bíblico, denominações e líderes religiosos criaram paradigmas que causaram feridas na alma de muitas pessoas, algumas inclusive chegando a abandonar o evangelho. 

 

Para se pensar…

Será que é justo nos comportarmos como “donos” da Igreja, ao invés de sermos servos de Deus? O mais coerente não seria termos comportamentos segundo a sua palavra nos orienta, ou seja, se o próprio Deus é misericordioso e concede novas oportunidades a sua criação, teríamos nós o direito de colocar barreiras e criarmos “pedágios” religiosos que acabam, ao invés de atrair as pessoas para Cristo, dificultando o acesso, ou ainda,  afastando-as.

 Talvez o puritanismo não bíblico de muitos crentes não só os atrapalha quanto a usufruírem da graça de Deus, bem como provavelmente acaba por dificultar que outras pessoas também usufruam do favor imerecido dado pelo Senhor, por tantos paradigmas desconexos do evangelho de Jesus. Penso que devido a visão distorcida sobre santidade, a falta de misericórdia com o próximo e um olhar menos humanizado de si mesmo, não vendo as suas próprias mazelas, podem oferecer grande resistência a evangelização de outras pessoas.

 

2020 – O Ano da Evangelização
de uma igreja bíblica e relevante

Pastor Ronildo Queiroz
Serviçal da Igreja de Jesus Cristo

 

Referências

GONDIM, R. É proibido: o que a Bíblia permite e a igreja proíbe. São Paulo: Mundo Cristão, 1998.

MANNING, B. Falsos, metidos e impostores. Tradução:  Robinson Malkomes. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.

MCALISTER, W. O fim de uma era: um diálogo crítico, franco e aberto sobre a igreja e o mundo dos dias de hoje. Rio de Janeiro, RJ: Anno Domini, 2009.

RAINER, T.S., RAINER III, S.S. Igreja essencial: resgatando uma geração que está abandonando a fé. Tradução: José Fernando Cristófalo. Brasília: Palavra, 2014.

RODRIGUES, J. A ação da cruz: transformando-o à semelhança do filho de Deus. Goiânia: Missão Cristã Mundial, 2004.

STOTT, J. A Igreja autêntica. Tradução: Lucy Hiromi Kono Yamakami. – 1 ed. Viçosa, MG: Editora Ultimato: São Paulo: ABU Editora,2013.

TOZER, A.W. A vida crucificada: Como viver uma experiência cristã mais profunda. Compilado e editado por James L. Snyder; tradução Lucy Yamakami. São Paulo: Editora Vida, 2020.

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