Pastoreio #78

A importância do Discipulado na vida do Cristão

Ser cristão, ou seja, seguidores de Jesus Cristo, requer que tenhamos a consciência que temos um modelo, um exemplo a seguir e que por mais falhos que sejamos precisaremos nos esforçar para imitar o Mestre Jesus.

O ato de aceitar o senhorio de Cristo não se resume a tradicional confissão diante das pessoas, mas a uma caminhada na qual os que decidem seguir a Jesus, precisarão lidar com os espinhos, solos inférteis, adversidades e lutas, antes do grande dia do encontro com o Salvador.

Fazer parte de uma denominação, ou ainda, ser um obreiro na obra do Senhor não é sinônimo de ser salvo, pois a salvação está única e exclusivamente na fé em Jesus Cristo, sendo assim, penso que precisamos nos preocupar com a nossa fé e com o conhecimento bíblico adequado que contribui com uma vida cristã mais próxima do exemplo de Cristo.

Acredito que o discipulado pode ser traduzido por cuidado, ensino, auxílio, acompanhamento e que todas essas ações redundam em fortalecimento da vida cristã dos discípulos, pois segundo Phillips (2008, p.37), “se o caráter de Cristo estiver faltando, você ainda não morreu para si mesmo e não está preparado para reproduzir.”

Pela importância que se deve dar a vida com Cristo, acredito que discipular as pessoas fazem parte da responsabilidade dada pelo Senhor a sua Igreja, com o objetivo de não somente fortalecer os mais experientes na fé, mas também de auxiliar os que iniciam a suas vidas com Cristo a terem firmeza em sua fé e caminhada com Deus.

O acompanhamento das pessoas para as auxiliarem a terem uma vida cristã mais frutífera é extremamente importante, justamente para possibilitar uma evolução maior na vida com Cristo, contando sempre com a ajuda do Espírito Santo. Considerando o que Lidório (2014, p.136), escreve sobre pelo que passam os cristãos, “a igreja que cumpre a missão será perseguida, odiada e passará por provações. O sofrimento também precisa ser estudado a luz da palavra de Deus. E andar na vontade de Deus não isenta o crente do sofrimento.”

Em tempos de tanto ativismo, penso que devemos ter cuidados com a nossa vida espiritual, isso inclui ter dependência total de Cristo, o que não nos impede de também ser ajudados por discipuladores, pois ter capacidades ou habilidades para realizar tarefas ou eventos, não valerão muita coisa sem que tenhamos um caráter transformado em Cristo Jesus.

A caminhada cristã exigirá dos seguidores de Jesus, sabedoria para optarem em escolherem o que de Deus escolhe, resiliência para mesmo com os sofrimentos e perdas não deixar de seguir, de perseverar em Cristo, uma dose maciça de amor para perdoar aos que lhe ferirem, pois também o Senhor o perdoou.

Posso considerar que o processo discipular cristão é mais ou menos como a experiência que tive quando adolescente em que a minha mãe ao colocar no fogo angu (feito com farinha de milho) para cozinhar pedia para eu mexer continuamente com uma colher de pau a massa para que ela não encaroçasse, às vezes, por um descuido eu deixava de mexer e pronto os caroços ou pelotas logo apareciam e denunciavam para minha mãe a minha falta de atenção e ação. O que penso com isso é que como cristãos precisamos de um acompanhamento constante, pois assim poderemos ser confrontados, ajudados, compreendidos, amados, ensinados e levados de volta ao caminho quando se fizer necessário.

Eu já ouvi de alguns cristãos que logo após terem recebido Jesus como seu Senhor, se sentiram órfãos quanto ao acompanhamento por parte dos cristãos mais experimentados na fé. Muitos desses cristãos não resistiram as tentações e deixaram a fé em Cristo, outros, porém, conseguiram seguir por conta própria, ou seja, não foram discipulados por ninguém, mas se interessaram em buscar conhecimento bíblico, além claro, de serem ajudados pelo Espírito Santo.

Por relatos como esse é que devemos nos esforçar para ajudar uns aos outros, sabendo que nem todas as pessoas possuem a mesma resiliência para permanecerem no evangelho de Cristo, então por isso, o acompanhamento das pessoas se faz tão necessário.

  

Recorte >>> Benefícios do Discipulado

Um dos maiores benefícios do discipulado, ou ainda, se não for o maior é o cuidado mais amplo e contínuo, ou seja, não se abandona os nascidos em Cristo ao longo do seu desenvolvimento cristão.

É muito comum ouvir crentes dizerem que logo após se renderem a Cristo, os seus evangelizadores simplesmente sumiram, deixando-os órfãos sem o “pai” ou “mãe” espiritual, sem a figura do discipulador.

Deixados a própria sorte, alguns desses novos cristãos não resistiram aos espinhos ou ainda as intempéries da vida e acabaram cedendo as tentações e até mesmo abandonando a Cristo. Alguns relatam que quando mais precisaram não tiveram com quem desabafar, pedir orientações e serem ajudados, realmente parece ser frustrante as pessoas começarem a caminhada cristã com tantos sejam bem-vindas, mas se depararem com “não contem conosco”, não iremos te acompanhar e ajudar a lidar com as suas lutas.

O discipulado não pode ser visto como uma mera atividade religiosa, considero que o ato de discipular é a reprodução dos ensinamentos e ações do próprio Jesus, gerando uma vida mais saudável aos cristãos.

O primeiro benefício é receber o ensino bíblico de alguém mais experimentado no evangelho, o discipulador que, invariavelmente é alguém que demonstra possuir maior habilidade na interpretação da bíblia. Ter alguém com quem podemos contar para nos esclarecer o que sozinhos não conseguiríamos entender é muito importante para que a nossa fé seja edificada em base sólida, no entendimento adequado das escrituras.

Geralmente o novo convertido não demonstra uma habilidade necessária para compreender todos os textos bíblicos, por isso, ter alguém que não somente explica a palavra de Deus, bem como ajuda o discípulo a aplicar os princípios de Cristo na vida cotidiana é altamente eficaz.

O segundo benefício é ter alguém com quem contar, ter um discipulador seria como ter a um pai ou mãe espiritualmente falando, alguém que se preocupa com o discípulo, que intercede, se relaciona, se interessa pelo bem-estar e crescimento dos discípulos.  A caminhada com Cristo não é uma caminhada fácil, entretanto extremamente gratificante, mesmo assim é muito comum ter notícias de cristãos que a princípio se mostravam tão fervorosos, mas que ao longo da jornada da vida acabaram deixando a Jesus.

Poder ter alguém como intercessor(a), como conselheiro(a) pode ser comparado a um oásis em meio ao deserto, poder receber palavras de motivação e esperança, poder tocar nas mãos estendidas que se oferecem para nos levantar é precioso.

Assim como Jesus estava sempre com os seus discípulos, o discipulador precisa se mostrar disponível e acessível aos discípulos, pois eles precisarão de suporte em algum momento da vida com Deus. Ter com quem contar é muito importante, poder desabafar, pedir oração e poder pedir opinião sobre assuntos da vida a alguém que tenha mais conhecimento bíblico e experiência de vida cristã.

O terceiro benefício é a comunhão, ter com quem comunga da mesma fé momentos de partilhamento e trocas vivenciais é um verdadeiro tesouro, pois quem é do reino compreende as coisas do reino, bem como o Senhor do reino, penso que isso facilita e potencializa a fé e o comportamento mais próximo da vontade de Deus.

Poder estar reunidos, o discipulado reúne pessoas e compartilha ensinamentos bíblicos, além do cotidiano da vida, não somente os ensinamentos, mas também vidas que, cada um, com as suas experiências pode influenciar e ser influenciado.

Poder perceber o outro, sendo empático é um verdadeiro refrigério para a alma, em tempos em que a individualidade é motivada, fazer parte de um corpo, de um grupo, a meu ver, não somente nos dá um certo conforto emocional, bem como nos possibilita através dos relacionamentos com os iguais em Cristo a edificar uma fé mais sólida.

O quarto benefício é a constância no acompanhamento, o processo discipular deve se mostrar contínuo, ou seja, não deixa órfãos, antes, porém, acompanha os discípulos até a idade madura, ou seja, até que esses possam reproduzir frutos saudáveis, segundo a vontade de Cristo.

Penso que temos um desafio como igreja, não deixar ninguém para trás, entretanto sabemos que alguns ficaram e ficarão, talvez por não serem ensináveis, ou ainda, pelo fato de os discipuladores não insistirem em discipular (acompanhando os novos convertidos ao longo da caminhada cristã), o que talvez, venha de algum modo contribuir com o esfriamento e abandono da fé.

Se não acompanharmos as pessoas até a sua firmeza e maturidade na fé, colocaremos em risco, talvez, perder pessoas que ajudadas poderiam ser instrumentos poderosos nas mãos do Senhor. O discipulador cumpre o papel de cuidador, professor, treinador e mentor, papéis importantes que contribuem com a formação dos discípulos de Jesus. Esses papéis não podem ser abandonados até que de fato os discípulos estejam prontos para gerar outros discípulos, passando a ocupar o papel de discipulador.

O quinto benefício é poder desenvolver as habilidades sociais, através dos relacionamentos interpessoais e dos aprendizados, podemos treinar o modo como nos relacionamos com as pessoas, colocando em prática os ensinamentos de Jesus, quanto ao amor ao próximo.

As habilidades sociais dão conta de como as pessoas se comunicam e se comportam com as outras pessoas, o discipulado contribui orientando e mostrando como podemos imitar as ações e reações de Jesus, desde o ato de perdoar, amar, ter misericórdia e estender as mãos aos necessitados.

Estar reunido com pessoas que buscam o mesmo objetivo, ser de fato seguidores de Jesus, faz com que os discípulos ajudem uns aos outros, através das suas orações, comentários, estender das mãos, atos de amor, misericórdia e bondade, são marcas registradas dos cristãos e que devem ser ensinadas e treinadas nas pessoas que desejam seguir a Jesus.

O sexto benefício é fechar a “porta dos fundos”, através do processo discipular os crentes tendem a se tornarem mais maduros e com esse crescimento se tornam mais resilientes e apaixonados por Deus, consequentemente não vivem em constante frenesi buscando onde devem congregar, ou ainda, buscando a igreja perfeita, pois ela não existe. Ao invés disso, deveriam ser mais espirituais suportando as adversidades e frustrações, pois assim trocariam menos de congregação, por perceberem que, as questões estão mais em si mesmos do que na instituição ou no outro.

O discipulado pode favorecer a permanência dos cristãos em suas igrejas locais, pois através do estudo da palavra, dos conselhos e das experiências aprendidas no grupo de discipulado, possuem a consciência de que estão em um processo de santificação, essa consciência faz com que julgue menos o próximo e conviva mais com ele.

Quando os cristãos não são devidamente ensinados e acompanhados, eles podem tomar decisões em suas vidas, muito mais movidos pelas suas fragilizações do que orientados pelo Senhor. O discipulado conduz os discípulos a refletirem, ponderarem sobre o que devem ou não fazerem, tomando decisões mais assertivas e contínuas em suas vidas.

Poderia listar outros benefícios do discipulado, como por exemplo, ajudar as pessoas a deixarem atos pecaminosos, pois na medida em que o conhecimento bíblico ocorre, as pessoas confrontadas pela palavra, encontrarão ajuda no grupo discipular para mudar radicalmente as suas vidas.

O discipulado precisa ser valorizado como uma forma de se fazer, sem entretanto diminuir a importância do evangelho e do Espírito Santo, pois somos apenas vasos nas mãos do Oleiro, o Senhor sim é o grande realizador da obra transformadora nas pessoas, mas Ele usa outras pessoas e repete os atos do seu Filho no modo como se relacionou, com amor, misericórdia, sabedoria e compaixão.

  

Ponto de contato >>>

 O discipulado contribui com a fé e a multiplicação das pessoas no reino de Deus.

Argumentação > 

A história de cada cristão geralmente é marcada com experiências vividas com o Senhor, esses momentos não deixam dúvidas sobre a existência e chamado de Deus, que em tudo e em todos os detalhes age. Essas experiências podemos considerar que são momentos poderosos que servirão para animar os crentes em dados momentos da caminhada. Entretanto o discipulado, ou seja, ser acompanhado por outros cristãos mais maduros, certamente traz uma contribuição ímpar a vida dessas pessoas, podendo ajudá-las a lidar de modo mais acertado com os desafios e percalços ao longo da caminhada com Deus.

Poder receber ajuda, conselhos, oração e explicação da palavra de Deus é extremamente positivo para os que iniciam a caminhada cristã, considerando que os pilares básicos de qualquer pedagogia geralmente passam pelo saber, fazer e ensinar, é muito rico poder passar por essas etapas tendo alguém para nos ajudar, pois assim podemos evoluir sempre buscando imitar e parecer Cristo. 

Para que seja possível absorver e multiplicar os ensinamentos e cuidados, será necessário ter de modo voluntário a disponibilidade tanto de quem discipula, bem como de quem é discipulado.  A meu ver o processo discipular pode ficar bem comprometido quando não existe essa cooperação de modo espontâneo entre os envolvidos no discipulado.  Confirmando essa relação espontânea e voluntaria, Phillips (2008, p.58), escreve que, “[…] não existe precedente bíblico para que os líderes exerçam sua autoridade sobre alguém que não se submete.”

O discipulado parece cumprir bem o papel de adoção dos novos filhos e filhas de Deus gerados pela palavra do Senhor, ou seja, se preocupa com o bem-estar das pessoas e demonstra isso cuidando e orientando as mesmas.

Esse cuidado demonstrado através do discipulado pode ser comparado com o cuidado que, segundo Phillips (2008, p.84), “Paulo sabia que simplesmente conduzir uma pessoa a Cristo não bastava. Ele considerava vão o seu trabalho se seus filhos espirituais não se tornassem discípulos maduros. E discípulos maduros reproduzem sua vida em outros – produzindo frutos duradouros.

Penso que compartilhar as experiências tidas com Deus, uns com os outros, nutre em muito a fé das pessoas de modo a lhes conduzirem a um nível de maior intimidade com o Criador e ousadia na pregação do evangelho.

É importante considerar que uma adequada reprodução de discípulos não se faz única e exclusivamente da nossa bondade ou com as nossas capacidades, antes, porém, é a partir da morte do eu que faz com que Cristo viva em mim e Ele por sua vez, nos faz ser e gerar novas criaturas Nele. Se de fato negarmos o nosso eu e carregarmos a nossa cruz, então, poderemos multiplicar discípulos segundo o modelo de Jesus Cristo, ou seja, o êxito não está em nós e muito menos nos métodos, mas no próprio Cristo e em seu evangelho.

O reino de Deus é aumentado e consolidado com a pregação das boas novas e o discipulado dos novos membros, segundo Macdonald (2009, p. 74), “o Novo Testamento parece apresentar dois métodos principais de se alcançar o mundo com o evangelho. O primeiro é a proclamação pública; o segundo se dá por meio do discipulado particular (Atos 20.10).”  

Precisamos estar atentos, quanto ao modo como estamos reproduzindo discípulos no reino de Deus, pois servimos a um Senhor que é santo e zeloso, ou seja, não podemos ser/estar e gerar cristãos de qualquer maneira, por isso, compreendo que o acompanhamento de modo mais bíblico e constante tem efeito positivo na formação do caráter dos cristãos.

Anunciar o evangelho, acompanhar e orientar os discípulos geralmente produzem bons frutos, segundo Macdonald (2009, p.75), “o apóstolo Paulo não apenas praticou ele mesmo esse método, mas pediu que Timóteo fizesse o mesmo. “As palavras que me ouviu dizer na presença de muitas testemunhas, confie-as a homens fiéis que sejam também capazes de ensinar outros (2 Tm. 2.02).”

Quando discipulamos alguém, partilhamos com ele a visão, missão e os valores de Cristo, convidamos essas pessoas a fazer parte do reino de Deus e não somente isso, mas a exemplo do discipulador, o discípulo é motivado a também no tempo certo reproduzir discípulos que imitem a Cristo.

No discipulado não cabe outra mensagem que não seja a de Cristo, não necessita de outro Senhor que não Cristo, bem como não se pode gerar discípulos saudáveis sem a ajuda do Espírito Santo.

A igreja de modo geral não deveria negligenciar o chamado de Cristo, ide e fazei discípulos, segundo Lidório (2014, p.169), “o chamado de Deus à sua igreja é pessoal e intransferível. Pessoal, pois Deus chama pessoas e não estruturas, gente e não instituições, para que a missão seja cumprida. Intransferível, pois Deus tem um plano específico para cada filho.”

Uma igreja que se compromete com o reino de Deus entende que a sua responsabilidade não se limita a anunciar o evangelho, mas cuidar das almas rendidas a Cristo, preparando-as para também glorificarem a Deus servindo a igreja de Jesus. 

Podemos considerar de modo geral que, o discipulado pode ser visto como a ação prática do cuidado com os novos convertidos a Cristo, mas também como a prática de consolidação da fé e vida cristã para os de mais tempo no evangelho.

  

Para se pensar…

Acredito que o discipulado contribui de modo significativo com o desenvolvimento dos cristãos, não somente com o conhecimento bíblico, mas também com o apoio de crentes mais maduros e experimentados na fé para aqueles menos experimentados.

 A condução do processo discipular precisa ocorrer de modo voluntário, tanto por parte do discípulo, bem como por parte do discipulador. Penso que o processo discipular fica comprometido quando tanto discipulador e discípulo não se aceitam, não se respeitam, podendo prejudicar o crescimento espiritual.

 Precisamos não somente pregar o evangelho, mas também ajudar as pessoas a amadurecerem na fé, o discipulador deverá ensinar, aconselhar, interceder, ajudar da forma que puder, demonstrando amor e misericórdia, de modo a favorecer a formação do caráter de Cristo nos seguidores de Jesus.   

 

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2021 – O Ano do Discipulado
de uma igreja bíblica e relevante

Pastor Ronildo Queiroz
Serviçal da Igreja de Jesus Cristo

 

Referências

LIDÓRIO, R. Sal e Luz: compreendendo, vivendo e praticando a missão. Revisão: Rita Leite. Belo Horizonte: Betânia, 2014.

MACDONALD, W. O discipulado verdadeiro. Traduzido: Emirson Justino. 2. ed. – São Paulo: Mundo Cristão, 2009.

PHILLIPS, K.W. A formação de um discípulo. Tradução: Elizabeth Gomes. 2. Ed. ver. e atual. – São Paulo: Editora Vida, 2008.

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