Pastoreio #76

Um Mestre Amoroso

Quando falamos sobre modelo para o discipulado não podemos ter outro senão o ensinado pelo Mestre, desde a condução do processo e tratativa com os discípulos, o modo amoroso, misericordioso e pedagógico com o qual Jesus lidou com os seus, não só deve nos inspirar, mas nos levar a imitar.

Se as vezes em dado momento da história da igreja, alguns líderes religiosos acabaram agindo como “donos” e “dominadores” da Igreja de Cristo, com o Mestre vamos aprender que o processo de atração e consolidação acontece justamente de modo contrário, ele atrai pelo amor e consolida com a misericórdia.

O Novo Testamento está repleto de exemplos sobre o modo como Jesus tratou as pessoas rotuladas como pecadoras, não apontando, não maltratando, antes, porém, amando, se interessando por elas e gastando tempo ao lado delas para ensiná-las não somente pela sua palavra, mas pelo seu exemplo.

Segundo Phillips (2008, p.157), “o que os discípulos viram e ouviram afetou-os de modo radical. Nunca se esqueceram da perfeita integração entre o ensino e a ação de Jesus (Atos 1.01).”

A combinação perfeita para o discipulado feita por Jesus, orientação teórica (evangelho) mais comportamento prático, não somente atraiu os discípulos, mas também os inspirou a gerarem outros discípulos para o reino de Deus.

De acordo com Phillips (2008, p.158), “Jesus proporcionou a seus discípulos um modelo perfeito (João 13.15). Eles então podiam fazer discípulos, não apenas porque conheciam Cristo, mas porque se tornaram como ele. Podiam ser modelo daquilo que outros deveriam ser.”

É importante considerarmos que o processo discipular exigirá dos discipuladores não somente o conhecimento bíblico adequado, comprometimento com os discípulos, mas também doses generosas de amor, misericórdia, paciência e acima de tudo interesse pelo discípulo.

As pessoas somente nos seguirão se perceberem em nós um real interesse por elas, assim como Jesus tinha pelas pessoas. Amando as pessoas e fazendo de tudo pelo seu bem, pelo seu crescimento, e para que esse interesse seja percebido, precisamos compreender o que Manning (2005, p.23), ressalta sobre a escrita de Morton Kelsey que, “a igreja não é um museu para santos, mas um hospital para pecadores.”, ou seja, se queremos ser discipuladores como Jesus foi, precisamos “olhar” as pessoas no mesmo nível e não com um olhar de pretensa superioridade.

O discipulado não estabelece hierarquia, não prioriza o “quem manda”, antes, porém, deve nos fazer acessíveis uns aos outros, pois assim conseguiremos não somente orientar, mas ter uma real comunhão com as pessoas.

Na escrita de Lucas 22.26, fica claro que a orientação de Jesus aos seus discípulos não foi que fizessem de tudo para serem superiores, para serem “chefes”, dominando as pessoas, mas que se quisessem ser grandes, precisariam ser pequenos, pois amar e servir é a base sólida do discipulado ensinada por Jesus.

A aceitação do discípulo pelo discipulador é imprescindível para que este possa ter êxito ao longo do processo discipular, ou seja, se faz necessário que ao invés de apontar o dedo acusando, o discipulador tenha desenvolvida a habilidade de ensinar com amor e não com julgamentos.

Ressaltando a necessidade de um comportamento mais amoroso do discipulador, menciono aqui a escrita de Manning (2005, p. 23,24), que citou a escrita de C.S Lewis “a graça reserva aceitação completa, pueril e satisfeita da nossa necessidade, uma alegria na dependência total. O homem bom sente pesar pelos pecados que fizeram com que sua necessidade aumentasse, mas não se sente inteiramente pesaroso pela nova necessidade que eles produziram.”

A vaidade é sem dúvida um dos empecilhos que podem trazer prejuízos ao processo discipular, a busca desenfreada por satisfazer seus próprios desejos, pode fazer com que o discipulador não siga o exemplo de Jesus quanto ao cuidado com as pessoas.

A palavra de Deus é a ferramenta mais excepcional para nos moldar, segundo o exemplo de Jesus, na carta aos Romanos 12.10 o apóstolo orienta que os cristãos deveriam dar honra aos outros mais do que a si próprios. Essa orientação certamente implica em negar a si mesmos, o que não á tarefa fácil, mas com a ajuda do Espírito Santo certamente conseguiremos.

Podemos observar que na vida de Jesus relatada no Novo Testamento, a humildade, o amor e a disposição em escutar e atender as pessoas eram marcas bem presentes do Mestre. Os discipuladores a exemplo de Jesus também precisam ter como meta imitar tais comportamentos, sendo sabedores que não existe estratégia que possa dar certo ou ter um resultado mais pleno sem seguir os passos de Jesus quanto as qualidades mencionadas aqui.

Em João 3.17, a missão do Mestre é clara, Ele não veio para condenar o mundo, antes, Ele veio para salvar o mundo, nada mais coerente que para realizar essa missão o amor, a paciência e a misericórdia sejam comportamentos presentes no Filho de Deus.

  

Recorte >>> O que não pode faltar ao discipulador?

Penso ser importante considerar que, enquanto discipuladores, precisamos ter claro que a nossa missão não é formar fãs, mas discípulos de Jesus, fazendo como o Mestre nos ensinou, com amor, sem interesses pessoais e espúrios, ou ainda, não julgando segundo as próprias ideias, crenças e tradições.

Acredito que ter um conhecimento bíblico adequado é importante, pois como geraremos discípulos de Jesus sem de fato conhecermos a palavra de Deus, ou ainda, como poderíamos identificar os ensinamentos que não contribuem com a formação cristã dos que seguirão a Jesus.

Não pode faltar o amor pelas pessoas, amar como Cristo amou, o que sem dúvidas é um desafio, mas um desafio que precisa ser encarado e vencido, pois assim teremos o êxito que Jesus teve ao discipular.

Amar não somente em palavras, mas em ações, segundo Phillips (2008, p.59), “em vez de usar a força bruta ou exigências autoritárias, o discípulo exerce sua autoridade servindo.”

O desejo de servir a Deus precisa convergir no desejo de servir ao próximo, bem como amar a Deus e não amar ao próximo é no mínimo incoerência, não podemos ser meros prestadores de culto, sem de fato se dispor a relacionamentos interpessoais que reflitam o amor e cuidado de Cristo.

O fato de ser discipulador não tira da pessoa a sua humanidade, pois mesmo sendo pecadores, precisamos lidar com outros pecadores sem julgamentos e com amor. Segundo Manning (2005, p. 29), “qualquer igreja que não aceite que é formada por homens e mulheres pecaminosos, e que existe para eles, rejeita implicitamente o evangelho da graça.”

Penso que não é cabível ao discipulador, ter um comportamento orgulhoso, ter uma necessidade tão gritante de deixar a sua marca pessoal, ou ainda, reivindicar reconhecimentos pelo seu trabalho, antes, porém, tributar a Deus toda a honra, glória e louvor, pois somente Deus deve ser elogiado pela tão excelente obra da salvação para todos os seres humanos, disponível em Cristo Jesus.

Segundo MacDonald (2009, p.139), “todo o ato de justiça ou bondade que um cristão realiza deve estar combinado com um testemunho do Salvador, de modo que ele, e não a pessoa, receba a glória.”

A vida do discipulador também requer cuidados básicos, desde uma vida de oração, leitura bíblica, um adequado relacionamento interpessoal com as pessoas, o exercício da misericórdia e perseverança para seguir insistindo com aqueles que o mundo não insistiu mais.

As ações e reações dos discipuladores, precisam ser regadas com muito equilíbrio emocional e amor de Cristo, Murdoch Campbell, escreve, segundo MacDonald (2009, p.142,143), que “um piedoso ministro das Highlands era casado com uma mulher semelhante. Certo dia, sentou-se em sua sala para ler a Bíblia. A porta se abriu, e sua esposa entrou. Arrancou o livro dele e jogou-o no fogo. Ele olhou para sua face e, calmamente, fez este comentário: “Jamais me sentei ao lado de um fogo tão acolhedor.” Foi uma resposta que afastou a ira dela e marcou o início de uma vida nova e cheia de graça. Sua Jezabel tornou-se uma Lídia. O espinho tornou-se lírio.”

Uma virtude que, a meu ver, não pode faltar ao discipulador é a capacidade de suportar toda e qualquer adversidade, assim como o apóstolo Paulo que mesmo em prisão domiciliar, escreve aos Filipenses 4.13, que estava pronto para tudo, pois ainda que em sofrimento, ele já tinha tudo o que lhe era necessário para lidar com as adversidades, Cristo Jesus.

Na minha opinião não é de bom tom que, os que ensinam, lideram e discipulam, sejam pessoas que vivem em instabilidades, levadas como as ondas do mar, antes, porém, acredito ser importante que, a exemplo de Jesus, se tenha uma conduta constante, o que não significa ausência de dores ou lutas, mas ter habilidades para lidar com essas dificuldades sem, entretanto, deixar de manter o foco no servir o reino de Deus.

Sobre ser resiliente e perseverante, MacDonald (2009, p.143), escreve que, “um grande santo um dia disse:”

“É uma marca da mais profunda e mais verdadeira humildade vermo-nos condenados sem causa e sermos silenciados em razão disso. Ficar calado diante do insulto e da ofensa é uma nobre imitação do Senhor. “Oh, meu Senhor, quando me lembro de quantas maneiras tu sofreste, sem que jamais merecesse isso, não sei onde estão meus sentidos quando me apresso a defender-me e me eximir-me. Como poderia eu desejar que alguém falasse ou pensasse qualquer bem de mim, quando tantas coisas ruins foram pensadas e faladas de tí?”

O discipulador não pode se esquecer que é humano, bem como também que segue sendo discípulo de Cristo e o discípulo não é maior que o seu Mestre, por isso, precisa ter bem claro que assim como Jesus sofreu, sendo perseguido, humilhado, maltratado e caluniado, não é de se estranhar que aqueles que seguem a Jesus passem pelas mesmas situações, por causa do nome de Jesus os seus discípulos serão odiados (Lucas 21.17).

Aos discipuladores, o exemplo de Jesus precisa ser inegociável, modelo ímpar que deve ser seguido para que o discípulo possa ter um pleno desenvolvimento em sua vida cristã. Para isso penso ser importante que, de tempos em tempos, aqueles que discipulam possam se esvaziar, assim como Jesus se esvaziou (Filipenses 2.06), não tendo por usurpação ser igual a Deus.

Quando temos um mestre que o seu cartão de visitas é a arrogância, quando quem ensina não tem a humildade de sentar-se para também ouvir, quando os que discipulam se colocam em uma posição de “chefe”, “dono” de pessoas e não de servo de Cristo e do próximo, precisamos rever as bases pelas quais nos apoiamos e nos motivamos, pois se a fonte não for o exemplo e modelo de Jesus, acredito ser prudente reavaliar nossos posicionamentos e ações.

  

Ponto de contato >>>

 A briga é entre o nosso ego e o exemplo de Jesus.

Argumentação > 

 Fazer a obra de Deus com o amor de Jesus, implica em renunciar às nossas vontades e tratar ao próximo com dignidade e favor, em não repetir o que o mundo sem Cristo já faz, julgar e lançar as pessoas para fora do convívio em sociedade, por isso acredito que o discipulador precisará se esforçar ao máximo para não ceder a sua natureza carnal, mas imitar a Jesus que não desiste das pessoas.

O exemplo de Jesus é o que referencia e modela o discipulador, ou seja, qualquer molde, ideia, filosofia ou ensinamento que não esteja de acordo, ou ainda, debaixo do exemplo de Jesus, precisa ser rejeitado pelos cristãos. Como discipuladores podemos até ler outros livros com o intuito de ampliar nossos conhecimentos gerais, entretanto, não podemos conferir a nenhum deles autoridade sobre a palavra de Deus. 

Precisamos, a meu ver, de tempos em tempos, revisar a nossa motivação, buscando saber o que nos move para realizar algo no reino de Deus, penso que devemos nos perguntar qual a nossa expectativa e qual o pagamento esperamos pelo que estamos fazendo. Se a nossa expectativa for, única e exclusivamente, ser recompensados na terra, então, precisamos revisar a nossa fé e entendimento do evangelho de Jesus.

Alguns cristãos ao longo da vida desistiram de seguir e imitar a Jesus, deixaram as “redes” e já não pescam mais almas, muito menos as discipulam, talvez os espinhos tenham sufocado a fé deles, ou ainda, a pouca profundidade fez com que desistissem de amar o próximo, bem como deixaram a pregação e  a consolidação do evangelho de Cristo nas nações.

Lutar contra nós mesmos é importante, pois a nossa vontade é inimiga da vontade de Deus, nossa motivação sem a ação do Espírito Santo é “tosca”, rasa e vergonhosa, mas em Cristo temos a motivação correta e tudo que precisamos para gerar e cuidar dos discípulos.

Mesmo entre os discípulos de Jesus podemos perceber a humanidade presente, em Pedro quando nega a Jesus (João 18.25-27), em Paulo que se esforçava para fazer o que era correto (Romanos 7.14-20), ou seja, todos estamos sujeitos às nossas paixões e fraquezas, entretanto temos o Espírito Santo como nosso fiel ajudador.

O exemplo de Jesus não somente nos constrange, mas também nos motiva, pois com tão grande amor Ele nos resgatou e nos filiou ao Pai, de modo que, somente por esse ato podemos e devemos nos esforçar para que nossa fé e obediência estejam em Deus.

Não foram poucos os líderes cristãos ao longo da história da igreja evangélica brasileira que, por conta de diferenças de pensamentos, dogmas e tradições romperam relacionamentos de anos com outros líderes, ainda que, certamente alguns casos se tenha uma argumentação fundamentada para tal ato, não podemos deixar de considerar que alguns casos se deram por mera vaidade.

As nossas intenções infelizmente nem sempre são dignas do Senhor, as vezes temos comportamentos que explicitam muito mais a nossa própria vontade do que a vontade de Deus. Um discipulador precisa sempre estar se moderando e realizando uma auto verificação, com o objetivo de não se perder ao longo do caminho com Deus e com os discípulos.

Que possamos “matar” o nosso eu e dar vazão ao Espírito Santo, que em tudo sejamos guiados por Ele e não tentarmos guiar a Ele.

  

Para se pensar…

 O quanto o nosso orgulho tem interferido na ordem de Cristo para nossas vidas? Ide e fazei discípulos. Temos a consciência da importância de um discipulador no reino de Deus, o quanto podemos ajudar ou prejudicar as pessoas em sua caminhada com Cristo?

 Não receberemos nenhum galardão do Senhor, se a motivação não for a correta, e a motivação correta é aquela que glorifica a Deus e que favoreça o crescimento dos discípulos, façamos a obra de Deus pela razão certa.   

 Já paramos para pensar que mesmo sendo discipuladores, seguimos sendo discípulos de Jesus, ou seja, o aprendizado é continuo, sigamos com os nossos ouvidos e coração sensíveis ao toque do Espírito Santo.

 

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2021 – O Ano do Discipulado
de uma igreja bíblica e relevante

Pastor Ronildo Queiroz
Serviçal da Igreja de Jesus Cristo

 

Referências

LIDÓRIO, R. Sal e Luz: compreendendo, vivendo e praticando a missão. Revisão: Rita Leite. Belo Horizonte: Betânia, 2014.

MACDONALD, W. O discipulado verdadeiro. Traduzido: Emirson Justino. 2. ed. – São Paulo: Mundo Cristão, 2009.

MANNING, B. O evangelho maltrapilho. Traduzido: Paulo Purim. São Paulo: Mundo Cristão, 2005.

PHILLIPS, K.W. A formação de um discípulo. Tradução: Elizabeth Gomes. 2. Ed. ver. e atual. – São Paulo: Editora Vida, 2008.

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