Pastoreio #82

Decisão por Santidade

 

O assunto desse pastoreio é sem dúvida importante, não só por nos relacionarmos com um Deus que é Santo, mas também para destrincharmos o que vem a ser a santidade bíblica, pois muitas vezes guardamos costumes e tradições pensando estarmos agradando a Deus, quando na verdade podemos estar incorrendo no erro que o apóstolo Paulo nos chama atenção em sua escrita em Colossenses 2.20-23, nos sujeitando a rudimentos humanos que na verdade não nos santifica em nada, mas apenas nos faz ter a falsa sensação de estarmos nos separando para Deus.

Talvez, alguma escrita nesse pastoreio poderá causar algum tipo de desconforto, mas um conselho que posso dar é que precisamos vir para a discussão com a “xícara vazia”, ou seja, se permitir ouvir e refletir com maior ponderação e cuidado bíblico, pois somente assim poderemos de fato agradar o Criador em suas exigências.

Antes de refutar ou de até demonizar o que trataremos aqui, sugiro que sejamos sinceros, prudentes e principalmente bíblicos quanto a análise de textos e a construção de crenças, penso que temos a tendência de, sempre que nos deparamos com escritas, pregações e cânticos que estão fora da nossa maneira de entender e crer, ou ainda, até mesmo fora da nossa rotina religiosa, acabamos por rejeitar sem ao menos, dar a chance de verificar com mais cuidado as questões bíblicas.

Precisamos separar muito bem o que é doutrina bíblica, dogma institucional, tradição e usos e costumes, pois geralmente alguns crentes acabam por misturar essas questões, razão pela qual, se perdem no conhecimento adequado da palavra de Deus e na vivência prática da vontade do Eterno.

Começo dizendo que 1 Timóteo 1.5, nos fornece uma base segura para que possamos saber como devemos nos relacionar com o Senhor, no meu entendimento ter um coração puro e reto, implica em não sermos hipócritas, antes, porém, sermos sinceros consigo mesmos e com Deus.

Consideremos que todos os seres humanos estão inseridos em alguma cultura, segundo Gondim (1998, p.27), “Edward Taylor, antropólogo norte-americano, assim definiu a cultura:

“Cultura, tomada em seu amplo sentido etnográfico, é o todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes, ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade.”

Geralmente a forma como as pessoas lidam (ação e reação) com o dia a dia, segundo Gondim (1998, p.31), “a cultura é semelhantemente responsável, em qualquer sociedade, pelos códigos comportamentais das pessoas. Criam-se regras que valem apenas em determinado círculo social.”

Penso que precisamos escolher a santidade bíblica, nos separar para o Senhor de acordo com o que a palavra de Deus requer e orienta, segundo MacKenzie (1983, p.848), “a santidade conserva-se não só pelo ritual cultural, mas também observando os preceitos morais de Iahweh: Israel deve ser santo porque Iahweh é santo (Levíticos 19.2).”

Escolher por ser separado para Deus implica em deixar claro que quer ter vida e não morte, quando não diferenciamos o que agrada e o que não agrada a Deus, geralmente somos levados a fazer escolhas que ferem os princípios bíblicos e consequentemente nos lança em carreira solo, ou seja, sem Deus ao longo da vida. Optar por santidade não significa que não pecaremos ao longo do trajeto da vida, entretanto quando pecamos e logo corremos para os pés de Jesus, temos Dele a promessa que mediante a confissão e arrependimento somos sarados e novamente habilitados a seguir debaixo das bençãos e proteção do Senhor (1 João 2.1-2).

Em todo o tempo, somos confrontados pelo nosso adversário, o objetivo maior dele é nos fazer errar o alvo, nos fazer desistir de Jesus, deixar o evangelho e consequentemente não vivermos as promessas do Eterno. Nós podemos desistir ou lutar, crer e seguir, ou então, parar, porém Deus sempre nos oferece ajuda, estende as suas mãos com todo o seu amor e misericórdia, com o intuito de nos fazer seguir e vencer, considerando essa grande ajuda do Senhor, como não venceremos, se Ele está conosco e por nós? Precisamos sempre escolher ser santo, ainda que a nossa natureza e os nossos feitos muitas vezes sejam maus, não desistamos de buscar a imagem e semelhança de Cristo, o exemplo do Mestre, Ele nos ajudará até a consumação dos séculos.

  

Recorte >>> Em que precisamos nos separar para Deus?

O grande desafio, a meu ver, para os cristãos que buscam agradar a Deus é saber o que de fato o Senhor não quer que seja feito e o que a religião ou os homens dizem o que não querem que seja feito. A globalização contribuiu para uma maior mistura das culturas, usos e costumes e hábitos entre as mais diferentes nações, em meio ao avanço tecnológico e mudanças das formas como se fazem as coisas, mudanças essas que podem ser percebidas também nos dicionários das línguas que a cada ano adotam novas formas de comunicação escrita, o que antes eram gírias, agora em alguns lugares se tornou forma oficial de escrever e falar.

Em meio a tantas mudanças, precisamos como crentes em Jesus saber separar o que é pecado e o que são usos e costumes, tradições, dogmas e que muitas vezes nos levam a empreender uma força desnecessária em guardar tais preceitos, quando a palavra de Deus não proíbe, ou ainda, não condena.

Na escrita de Gondim (1998, p.35), ele fala dos danos dessa mistura entre cultura e doutrina bíblica, “uma das mais duras críticas direcionadas aos missionários jesuítas que evangelizaram a América Latina diz respeito à falta de diálogo intercultural. Os pregadores portugueses que aqui chegaram compreendiam-se como mensageiros não só do evangelho, mas também de uma cultura que consideravam perfeita.”

Penso que alguns líderes religiosos, acabaram por impor alguns usos e costumes, talvez até com uma boa intenção de ajudar na santificação do povo para Deus, entretanto, esses rudimentos impostos acabaram sendo colocados lado a lado com a palavra de Deus, quando não, em alguns casos essas normas criadas pelos homens foram consideradas acima da própria bíblia.

Em alguns casos, os famosos Manuais de Doutrina ou Regimentos Internos criados por algumas denominações são evidências dessas distorções que cito aqui, quando constam regras e proibições que não fazem sentido algum, nem com a cultura local e muito menos com os textos bíblicos. As proibições vão desde comida a vestimentas, muitas vezes impondo um padrão em um povo que nada tem a ver com a aquele povo e que também a bíblia não classifica como pecado.

Não precisamos ir longe, no Brasil um país tropical, algumas denominações do segmento evangélico direta ou indiretamente instituíram uma espécie de “roupa santa”, em que os crentes tidos como convertidos e sendo de Deus deveriam usar.

O uso do terno e gravata por exemplo, por muitos anos foi tido como a roupa ideal para os homens cristãos usarem, em algumas denominações estar trajados dessa forma indicava santidade, não se vestir como o “mundo” se vestia.

Me recordo de um fato em uma igreja na qual fui pastor que certo dia recebi em minha casa um amigo que era advogado, mas não era cristão, o convidei para ir ao templo participar do culto ele aceitou e colocou o seu terno, em dado momento do culto uma irmã que estava na direção da liturgia, disse no microfone “quero dar uma oportunidade ao nosso irmão” (ao meu amigo advogado)  e ele foi pegou o microfone deu boa noite a todos e disse que admirava como nos dedicávamos a nossa religião e que ele não era da nossa religião, mas que respeitava. Posso dizer que a irmã ficou constrangida e que naquele momento vivenciamos o ditado popular “quem vê cara não vê coração”, ou seja, a roupa por si só não indica que cremos na palavra ou que estamos santificados para Deus.

O bom senso é cabível em todo e qualquer círculo social, religião e relacionamento, entretanto penso que não podemos nos agarrar somente ao bom senso e desprezar a essência do evangelho de Jesus e a essência tem a ver em uma obediência ao que Deus nos fala e não ao politicamente correto. Ser contado com a maioria, falar e parecer com a maioria não nos torna separados para o Senhor, mas termos o cuidado de agradar a Deus, por mais doloroso que seja o obedecer é a única forma de vivermos uma vida em santificação.

Como seguidores de Cristo não podemos nos entregar à idolatria, seja aos falsos deuses que a bíblia diz que tem olhos, mas não veem, tem boca, mas não falam e ouvidos, mas não escutam, ou seja, confiar em qualquer outro ser conferindo a esse o poder que somente o Criador tem é sem dúvidas uma ofensa ao Senhor.

Não podemos como cristãos nos entregar aos desejos carnais, ainda que na sociedade atual parece ter normalizado tais comportamentos, mas como crentes em Jesus precisamos seguir nos guardando em temor a Deus.

Precisamos nos separar para Deus quanto ao que Paulo escreveu aos Gálatas no cap. 5.18-26, lembrando os cristãos que em Cristo as suas paixões e maldades deveriam estar crucificadas, permitindo que se sobressaísse neles o amor e os comportamentos assertivos de Cristo. O padrão moral e ético de Jesus Cristo deveria ser o padrão a ser perseguido pelos que querem se aproximar de Deus, mas sabemos que sem a ajuda do Espírito Santo não conseguiremos, então, nos resta confiar e seguir caminhando sem olhar para trás, sem querer parar, diria que fé + esforço pessoal + dependência do Espírito Santo nos levará a não só nos separarmos para Deus, bem como a vivermos os planos do Senhor para as nossas vidas.

Precisamos ter cuidado para não incorrer nos mesmos erros dos Fariseus que aparentavam grande espiritualidade, mas na verdade estavam cheios de pecados, justamente por não entenderem a essência da palavra de Deus e não levarem a sério o que de fato tinha importância, “coando um mosquito e engolindo um camelo (Mateus 23.24)”.

Assim como os Fariseus davam mais importância às suas regras criadas com o pretexto de ajudar as pessoas a cumprirem a lei, também alguns cristãos e denominações acabaram criando regras com intuito de ajudarem as pessoas a viverem a palavra, pode até ser que algumas dessas regras ajude sem serem nocivas a fé, mas também é preciso ter o cuidado de não colocar as regras acima da palavra de Deus.

O grande desafio é se manter bíblico, ou seja, ter um entendimento sem as tantas misturas teológicas que algumas vezes tentam perverter a escritura sagrada, entender com clareza e de forma adequada o que de fato a bíblia condena como pecado e o que não condena.

Em Cristo somos livres, mas é claro que precisamos ter o cuidado de saber o que de fato nos edifica, nos ajuda a nos manter separados para Deus, pois nem tudo é lícito (1 Coríntios 10.23).

Os usos e costumes quanto as roupas, por algum tempo em devidos lugares ainda permanece sob censura por alguns cristãos e denominações, frases do tipo “roupa mundana”, ou ainda, “roupa do mundo”, parecia criar uma linha divisória em que de modo distorcido se tentava comunicar e ensinar que usar as tais “roupas do mundo”, indicavam que essas pessoas que as usavam não estavam de fato convertidas a Cristo.  A verdade é que culturas de outros povos foram inculcadas no Brasil e no segmento evangélico não foi diferente, algumas denominações abraçaram alguns itens dessas culturas e as estabeleceram não somente como verdades absolutas, mas também conferiram a esses usos e costumes o poder de santificar quem se submetesse a sua prática.

Me recordo de um tempo em que a fala dirigida as mulheres que usavam maquiagens era que pareciam com “Jezabel”, devido a uma distorção no entendimento bíblico talvez baseando-se unicamente em 2 Reis 9.30 quando ela pinta o rosto e enfeita o cabelo para talvez tentar convencer Jeú a não a matar, entretanto o comportamento mais enfatizado contra Jezabel era que ela induzia o povo e o rei Acabe a adorar a Baal e a pecar contra o Deus de Israel. Por muito tempo as cristãs que se maquiavam foram vistas como “mundanas”, quando na verdade a bíblia não traz uma proibição quanto a esse fato, mas fala de não se preocupar somente com o estereotipo, mas também em se ter um coração agradável a Deus. Cabe aqui uma ressalva, o bom senso é como o tempero que na medida certa dá o sabor adequado, o equilíbrio é uma base segura.

Reforçando a informação sobre os cuidados que precisamos ter para não colocarmos a cultura, dogmas e tradições acima da palavra de Deus, Gondim (1998, p. 38,39), escreve que:

“Hudson Taylor foi missionário na China. Antes de lá chegar, ele dormia no chão, sobre esteiras, e aprendeu a comer como os orientais, de palitinho; educou-se a comer as mesmas comidas que os chineses. Logo que aportou na China notou que os missionários restringiam seus esforços no litoral e nas grandes cidades. Fechavam-se em vilas missionárias, de muros altos. Hudson Taylor viu que os missionários tinham uma atitude colonialista. Consideravam sua cultura superior e mais santa que a dos chineses. Sem hesitar, ele raspou a cabeça, mas deixou crescer um longo “rabo de cavalo”, vestiu-se e calçou-se como um chinês e partiu para o interior da China. Os ingleses não eram (e nem são) superiores a ninguém. Não há cultura sagrada.”

Penso que uma vida separada ou santificada para Deus deve ser aquela que imita a tomada de decisões e comportamentos observados em Jesus, o Mestre sempre colocava a vida acima do rito, o sagrado não estava fora, mas dentro das pessoas, o amor como algo inesgotável por mais que lhe ofendiam, o estender as mãos para ajudar a quem quer que seja, tendo sempre a disposição para ouvir, compreender e aconselhar.

Penso que podemos começar a nos separar para Deus sendo verdadeiros consigo próprio e com Deus, não ostentando o que não somos, antes, porém, sendo verdadeiros tanto em nossas orações, bem como em nossas confissões.

Uma vida de santidade é possível, mesmo sendo tão falhos como somos, mesmo sendo frágeis em nossa fé, pois o Criador proporcionou toda a condição para que possamos avançar, sendo garantidos por Cristo mediante a fé. Por mais complexas e difíceis que as coisas estejam, precisamos seguir com fé e confiança em Deus.

Estabelecer uma relação sincera e íntima com Deus me parece ser um caminho saudável para não somente aprendermos Dele, mas também termos a ajuda Dele, sendo assim precisamos valorizar a nossa relação com o Senhor.

  

Ponto de contato >>>

Uma genuína santificação começa com um adequado entendimento da palavra de Deus.

Argumentação > 

Eu continuo insistindo em que tenhamos um conhecimento adequado da palavra de Deus, pois quando o temos, a vida fica mais leve, podemos viver como livres em Cristo sem nos condenar com o que de fato a bíblia não condena ou proíbe.

Desde os tempos mais remotos, religiosos de várias nações e das mais diversas crenças, estabeleceram ritos e costumes conferindo algum tipo de poder sobrenatural, o cristianismo por sua vez, não pode adotar os mesmos comportamentos, pois senão será apenas mais uma religião, biblicamente não tem nada fora Jesus Cristo que possa nos proporcionar justificação, purificação e salvação, somente Nele e tendo os seus ensinamentos como base poderemos construir uma vida separada para Deus.

A igreja de Cristo não precisa de amuletos ou ritos de purificação, a igreja de Jesus foi limpa pela palavra de Deus e nisso precisamos confiar e obedecer (João 8.32), quando temos um entendimento adequado da palavra de Deus, podemos então ser limpos dos nossos pensamentos distorcidos, pecaminosos, pois a palavra nos limpa e o Filho garante a nossa libertação (João 8.36).

Penso na igreja de Corinto, tiveram um entendimento que já estavam completos, por terem os dons, que eram “a Igreja referência”, mas são repreendidos pelo apóstolo Paulo (1 Coríntios 13), quanto a negligência do que era essencial, porém, por eles desprezado, o amor.

Precisamos tomar cuidado para não nos agarrarmos as muitas regras e normas, correndo o risco de tropeçarmos no que é básico e elementar da palavra de Deus, penso que devemos ter o zelo em não julgar ou rotular as pessoas, sem antes, saber qual é a nossa real situação perante a bíblia. Não se trata de ser amigos do pecado, mas ao invés de julgarmos as pessoas devemos orar por elas crendo que assim como Deus nos ajudou a mudar, também pode ajudar as outras pessoas a mudarem de vida.

Eu acredito que ter noção da nossa real condição (de pecadores) perante Deus nos ajuda a nos preocupar com o que realmente é relevante, ou seja, lutar para não pecar, buscando nos separar para Deus em oração, leitura da palavra e testemunho de vida.

Para reforçar quero citar Lidório (2014, p.151), que escreve, “não basta entender, crer, ou mesmo saber o bastante para ensinar tais assuntos. É preciso viver.”. Sigamos firmes e dependentes do Senhor que tem cuidado de nós, decidamos nos santificar para Cristo, pois certamente é a melhor escolha!

  

Para se pensar…

Escolher ter uma vida em santidade nos leva para mais perto de Deus, entretanto não podemos nos esquecer que lutaremos contra a nossa própria natureza humana, temos consciência de tal batalha e nos preparamos para ela?

 A santificação vai muito além do parecer para que outras pessoas vejam, tem mais a ver com o nível de intimidade que temos com o Criador, quanto mais íntimos somos Dele mais nos separamos do que não tem nexo com Ele e isso nos faz ficar mais parecidos com Cristo. Somos verdadeiros consigo mesmos e com Deus?

 Qual a nossa disposição para nos santificar, o que nos motiva a não vivermos dissolutamente, optando por ter uma vida mais alinhada com a palavra de Deus? Acredito que ter em mente as promessas feitas pelo Senhor nos ajude ter forças, bem como contar com o Espírito Santo que nos ajuda em todas as nossas falhas e dores.

 

______________________________________

2022 – O Ano da Decisão
uma igreja bíblica e relevante

Pastor Ronildo Queiroz
Serviçal da Igreja de Jesus Cristo

 

Referências

GONDIM, R. É proibido: o que a Bíblia permite e a igreja proíbe. São Paulo: Mundo Cristão, 1998.

LIDÓRIO, R. Sal e Luz: compreendendo, vivendo e praticando a missão. Revisão: Rita Leite. Belo Horizonte: Betânia, 2014.

MACKENZIE, J.L. Dicionário Bíblico. (tradução Álvaro Cunha…et al.; revisão geral Honório Dalbosco), São Paulo: Paulus, 1983.

Menu